Eu to tentando. Eu juro que eu to tentando. Eu tento todos os dias. A minha vida consiste em várias e constantes tentativas. Eu tento não dormir tarde, tento não demorar pra sair da cama depois que o despertador toca. Tento tomar café da manhã ao invés de tomar só o café. Tento me organizar, usar uma pasta pra cada coisa importante, anotar tudo na agenda ao invés de anotar na mão. Tento não perder tempo com bobagens, não bater o carro com pressa na garagem do prédio, comer salada na hora do almoço, não comer trufas de sobremesa todos os dias. Mas a única tentativa que realmente vale a pena é a que eu faço pra ser um ser humano melhor. Frase de livro barato de auto ajuda, de revista brega de romance de banquinha. O clichê universal de todas as pessoas mal resolvidas consigo mesmas, o lema das neuróticas, o medo das histéricas, o meu desafio pessoal e intransferível.
Eu juro que eu to tentando não deixar as minhas células destrutivas estragarem tudo dessa vez. To tentando respirar fundo e contar até dez todas as vezes que sinto que alguma coisa vai sai do controle. O controle se mantém por bastante tempo, nem exige grandes esforços. É um carro em alta velocidade numa estrada em linha reta. Não precisa se preocupar, é só ir reto, é só manter o pé no acelerador e a angulação certa do volante. Tudo vai bem, nada a se preocupar. Um mosquito batendo no vidro, uma morte rápida. Uma pedrinha que bate na lataria, mas depois é só pintar. Até que aparece um buraco, o volante vira sozinho, o carro se perde na linha reta e demora pra voltar à sua posição. Nesse pequeno espaço de tempo, a cabeça gira, as mãos se descontrolam tentando saber o que fazer, os olhos não se fecham, o coração bate muito forte, o sangue corre rápido entre as veias, parece quase se perder. Até que o carro para. Até que você me pare. Até que me force a encostar a cabeça no seu peito, mesmo com a relutância clássica do orgulho. Até que você beije a minha testa e eu peça desculpas... mais uma vez.
O carro volta a andar, começa devagar e logo tudo volta ao normal. Eu respiro devagar, seco as lágrimas na gola da sua camisa. Enquanto você aperta as minhas mãos geladas e abafa tudo com o seu poço de calmaria e tranquilidade. É um caminho novo que eu ainda to aprendendo. Vez ou outra eu me perco pelas quebradas que eu costumava andar antes de você aparecer. Foi assim que eu aprendi... quando o carro perde o controle, nunca mais volta a posição original. A gente gira, gira, gira... até que bata numa árvore, numa cerca de arames, caia num precipício e exploda lá em baixo. Eu não aprendi a pisar no freio, não aprendi a dose certa de controle, nem a prender a respiração no momento exato pra não sufocar com a própria lingua.
Você arruma meu cabelo, ri da minha cara de choro, sente pena e orgulho. Como um pai que ensina o filho a andar de bicicletas sem rodinha. Você me levanta, beija o joelho machucado e me empurra pra tentar de novo. E eu sigo tentando. Aperto meu corpo contra o seu, beijo o seu pescoço e respiro aliviada.
Foi só um susto.
A dose certa do controle é o descontrole absoluto.
ResponderExcluirSinto uma falta de abrir essa página, que eu abro todos os dias, e ver alguma coisa nova, sabia?
ResponderExcluirO que passa na sua cabeça, faz falta para a minha criatividade.
Baci, sardenta.