quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Mulher pra caralho

Ser mulher dá um trabalho filha da puta. Eu vejo o quanto sofrem as minhas amigas. Deus não quis me dar cabelos que precisam de escova, então eu saio de cabelo molhado mesmo.

Deus quis me dar preguiça e falta de paciência, então eu só demoro mais pra fazer a maquiagem se tiver muitas cores pra passar nas pálpebras e decidir brincar de misturar todas pra ver que cor fica.

Deus quis me dar altura, então eu não uso salto alto e posso dançar a noite inteira sem dores nos joelhos, sem dores nas costas, sem bolhas nos pés.

Mas o mundo todo espera que toda mulher esteja impecável, então eu me forço a perder mais uns 10 minutos até que todos os fios estejam no lugar.

Não posso rir da desgraça alheia, mas lá estavamos nós lindas e maravilhosas, prontas pra conquistar o mundo com tanta segurança, quando Deus resolve que é hora de chover.
O funk da chapinha é sensacional.

E lá vai o cabelo sem chapinha afundar o pé sem salto nas poças pra pegar os convites da festa.
A primeira parada é o banheiro pra ajeitar o cabelo, retocar a maquiagem e fazer caras e bocas no espelho.

Minha primeira parada é no bar. Pra escolher a bebida mais barata, que me deixe bêbada mais rápido e tenha efeito prolongado.

E lá vai o mundo achar que mulher bem resolvida não enche a cara.

E lá vai todo mundo ficar sóbrio pra minha bebedeira destacar.

E lá vou eu feliz da vida, pulando com um pé só, gastando quase 30 reais pra apreciar um copo de vodka.

Às vezes eu acho tão bonito tomar café, ser intelectual, viver de literatura e filmes cults. Usar um par de oclinhos vermelho quadrado, um sapato de camurça vintage e pintar as unhas de café. Aprecio um dia de chuva na montanha, começar a escrever o primeiro romance no maior estilo europeu século 20.

Cobrir as pernas com uma mantinha xadrez, meias de lã e caneca de louça para o café.
Só que eu odeio café e, provavelmente, gastaria todo o dinheiro do primeiro romance pra tornar a casa de madeira na montanha um lugar sem crises de rinite pra não morrer tossindo no meio do nada.

E aí eu pinto as unhas de vermelho, de vez em quando até arrisco usar batom. Saio com o cabelo molhado, ando na chuva e sempre perco um brinco por aí. Isso quando não é o relógio, o anel e o presente do pai.

Eu sempre estrago a pose de mulher fatal com um tombo lendário e mato todo mundo de rir. O batom sai logo no primeiro copo e é possível que eu termine a noitada sem sapatos correndo no meio da rua.

Um dia eu ainda posso usar um terninho sedutor, cortar o cabelo na altura do ombro, usar um batom escuro e entender tudo de vinhos.
Posso também deixar a sedução de lado e usar o charme da inteligência. Viver falando de Freud, respirar Freud e aí virar Freud.

Posso abandonar as meias de lã por causa da alergia e adotar um pouco de salto alto. Jogar o peito lá pra frente e desfilar a segurança do mundo em uma pessoa só. É só rezar pra não cair no chão e quebrar a cara no meio da pose.

Dentre tudo isso eu ainda prefiro usar chinelo e camiseta pra suar a tarde inteira, prender o cabelo com calor e virar um ou dois copinhos só pra dar risada. Prefiro não retocar a maquiagem nenhuma vez e borrar tudo na chuva.

Prefiro ter que me apoiar nos ombros dele pra lavar os pés no fim da noite e cair junto no chão do banheiro, morrendo de rir. Prefiro fazer sexo no chão do banheiro e não me cobrir com lençol no meio da madrugada pra fazer xixi.

Comer pizza gelada de café da manhã e matar pernilongos no meio da noite.

Eu prefiro que, ainda assim, ele ache tudo aquilo que eu não tentei mostrar.

Um comentário:

  1. Hey,
    Gostei da Ana De Freud.
    Sem Seduções e bla bla bla.
    Essa Ana EH a Melhor, porque a sedução não ira parar de existir, independente do que e aonde estiver, vc pode ser oque quiser, pode ser melhor.
    PS, Não corte o cabelo.

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